desde o início da pandemia
tenho ouvido com muita frequência
a narrativa de travessia
dentre várias outras analogias
para ‘explicar’ a crise em que estamos

travessia dura
mar revolto
barcos pequenos, médios, grandes ao mar

o esforço narrativo tenta nos fazer crer
que freios de arrumação são necessários

neste sentido
surgem versões e versões desta metáfora

freios de arrumação mais drásticos
do que supostamente necessários

mais pessoas e caixas ao mar
do que talvez necessário

mais náufragos em apuros
e menos boias salva-vidas para todos

afinal
os barcos maiores precisam seguir
ainda que parte (muitas vezes considerável)
de sua tripulação e carga
fique pelo caminho

afinal
fins justificam os meios, não é?
já não era assim no ‘velho normal’?
porque mudaria agora?

talvez comandantes de barcos
enxerguem alguma luz bem lá na frente
ou
talvez apenas nos fazem crer que veem algo

resta saber se
do outro lado desta travessia
há sobreviventes
pessoas físicas, jurídicas
ou ambos

e enquanto retomamos ao ‘normal’
seja o ‘novo’ ou o ‘velho’
a tempestade, ao que parece
veio pra ficar

#impactonaencruzilhada

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