Volto ao já longínquo ano de 1998. Em meu segundo ano de graduação, partimos (4 estudantes) para o sertão da Bahia, mais especificamente para Gameleira do Assuruá, distrito de Gentio do Ouro – BA. Pra chegar lá, 36 horas de ônibus de SP a Xique-Xique (viação Emtram – rota existente até hoje) e mais algumas horas na carroceria da caminhonete da ONG que nos abrigava para o estágio até sua sede, o Centro de Assessoria do Assuruá (https://caabahia.org.br/). Hoje a OSC está sediada em Irecê-BA e não mais em Gameleira.

Escavando memórias e lembranças dessa épica viagem, ofereço ao leitor(a) alguns flashes que podem ser úteis pra contextualizar o Brasil do final dos anos 90.

– Comunidades sem luz elétrica (ainda é uma realidade, mas era muito pior)

– Acessos precários a comunidades rurais (idem)

– Muita potência nas comunidades aliada a desinformação e baixa auto-estima

– Movimento de agroecologia engatinhando, mas com bases sólidas

– Mesmo na pobreza, o sorriso no rosto e a hospitalidade

– Iniciativas de convivência com o semi-árido começando a ganhar espaço (a própria ASA – Articulação do Semi-árido nasce no começo/meio dos anos 90). Pra se ter uma ideia de tempo, o projeto das cisternas (da própria ASA) começou em 2003.

– Idem para agroecologia, agrofloresta e agricultura orgânica

Parecia um estágio inocente, mas foi uma experiência muito rica (depois viriam tantas outras) de se conhecer esse Brasil profundo, onde as carências e intempéries não anulam sonhos, esperanças e potências em direção a uma vida melhor.

Numa das comunidades que visitamos e ficamos (não me lembro mais o nome), além do banho de balde, que era tomado depois de um trago de cachaça local (era o ‘aquecedor’ disponível) e da deliciosa comida local, descobri que seu Zé (nome fictício, pois não me lembro mais o nome), nosso anfitrião era palmeirense. Batata: doei minha camisa do palmeiras, a única que eu tinha (a da era parmalat) pra ele. Alegria não cabia em seu rosto, é o que dizem, pois mandei pelo correio minha camiseta pra ele depois que retornei do estágio.

Esses laços de solidariedade, de conexão com lutas do campo, com outras formas de se fazer transformação socioambiental, enfim, de experimentar na prática as ideias de Paulo Freire, reforçaram em mim a sensação de que o caminho profissional era por essas bandas. Embora a agronomia então ensinada na universidade nos mostrasse um caminho oposto a esse (o clássico vendedor de adubo e agroquímicos), estar na universidade permitia abrir essas janelas de vivências com um Brasil real, com um campo longe das colheitadeiras e agroquímicos, num tempo muito antes do agro ser tachado de ‘pop’. Vale lembrar que nessa época ainda era comum escutar nas salas de aula que ‘não era possível produzir sem o uso de agroquímicos’.

No final do dia, eram essas vivências que faziam parecer que a agronomia fazia sentido, mesmo não fazendo. E mesmo hoje digo sem dúvida que faria novamente, muito mais pelo conjunto da obra, do que pela formação quadrada que a agronomia me entregou. Como esse passado não está mais a meu alcance, me contento com o título de ‘agrônomo não praticante’. Já me basta.

Dando um salto daí pros dias de hoje, me pergunto onde fomos parar?

De um lado, num lugar com inúmeros avanços e saltos nos IDHs, PIBs e estatísticas. Além dos números, outros símbolos reforçam a ideia de ‘avanço’ na região: motos no pasto tocando gado e cabras, eletrodomésticos e energia nas casas rurais, mais acesso à escola/universidade e saúde, etc. Como qualquer processso do dito ‘desenvolvimento’ há também copos meio vazios a se enxergar: mais violência no campo e nas cidades, dentre tantos outros problemas.

Por outro lado, tempos estranhos e contraditórios esses em que estamos. Tempos de ódio, de um canalha revisionismo histórico, de preconceitos e terraplanismos como troféus a serem exibidos. Talvez por isso mesmo, ser/estar no Nordeste represente muito mais do que ir ou viver num lugar. Representa uma (re)conexão com uma brasilidade mais rica e potente, um (re)abastecimento de alento e esperança. Me faz lembrar um muro pichado em Brasília, por onde eu passava todo dia: “Mais Nordeste, menos ódio”. Nada mais didático e preciso do que a licença poética ou a desobediência civil nos apresenta. Chame como quiser.

 

Repost*: artigo originalmente postado em Impacta Nordeste

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